Projeto antes da pressa: os segredos da Espanha que o Brasil precisa observar
A Espanha não chegou à final da Copa do Mundo apenas porque juntou Yamal, Rodri e Pedri no mesmo time. A campanha é fruto de uma identidade construída desde as categorias de base, de um treinador formado dentro da própria seleção e de um elenco que colocou o coletivo acima das estrelas. O Brasil não precisa copiar o futebol espanhol, mas bem que poderia anotar algumas lições: definir uma ideia, formar treinadores e parar de recomeçar o projeto a cada tropeço.
Enquanto a França concentrava os holofotes e a Argentina avançava em partidas carregadas de drama, a Espanha foi construindo seu caminho até a final com uma tranquilidade quase suspeita.
A Fúria eliminou adversários como Uruguai, Portugal, Bélgica e França, sofreu apenas um gol em sete partidas e assegurou a oportunidade de conquistar o bicampeonato mundial. No domingo, 19 de julho, enfrentará a Argentina de Lionel Messi, às 16h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
O sucesso espanhol não nasceu durante a concentração para a Copa. Também não depende apenas do talento de Lamine Yamal, Rodri, Pedri, Dani Olmo ou Mikel Merino.
Existe um projeto por trás do time: uma ideia de jogo ensinada desde as categorias inferiores, um treinador que conhece esse processo e um elenco disposto a trabalhar como unidade.
Para o Brasil, eliminado pela Noruega nas oitavas de final, a principal lição talvez esteja justamente aí. Antes de escolher uma formação, convocar um novo salvador ou discutir quem vestirá a camisa 10, é preciso decidir que tipo de seleção se pretende construir.
De la Fuente conhece a casa inteira
Luis de la Fuente não chegou ao comando da seleção principal como uma aposta de emergência ou apenas por uma sequência positiva em algum clube.
Antes de assumir a equipe adulta, o treinador trabalhou nas categorias sub-19, sub-21 e sub-23 da Espanha. Acompanhou a formação de jogadores, participou da construção metodológica e conheceu por dentro a filosofia que a federação pretendia levar ao campo.
Quando recebeu a oportunidade na seleção principal, já sabia quais sementes tinham sido plantadas e quais atletas estavam preparados para colher os resultados.
Em 2024, De la Fuente conquistou a Eurocopa. Dois anos depois, colocou a Espanha novamente na decisão de uma Copa do Mundo, algo que não acontecia desde o título de 2010.
O treinador está a uma vitória de repetir uma sequência semelhante à alcançada pela geração espanhola que conquistou a Euro de 2008 e o Mundial da África do Sul.
Não se trata apenas de manter um técnico por tempo suficiente. A continuidade funciona porque existe uma conexão entre o profissional escolhido e o projeto desenvolvido pela federação.
Um elenco com estrelas, mas sem estrelismo
A Espanha tem alguns dos jogadores mais talentosos do mundo, porém não atua como uma coleção de celebridades esperando uma jogada individual.
Durante os treinamentos, o ambiente é descrito por jornalistas espanhóis como leve, descontraído e sem grupos isolados. Os atletas brincam, conversam e demonstram uma convivência distante da tensão normalmente associada a uma final de Copa.
Essa tranquilidade não significa falta de concentração. Ela revela confiança no trabalho e segurança dentro do grupo.
Adrián Herrero, da RTVE, definiu a principal qualidade espanhola como a capacidade de todos comprarem a ideia do treinador. Mesmo com Yamal entre os grandes nomes da atualidade, a equipe não depende exclusivamente dele. Quando perde a bola, todos pressionam. Quando recupera, todos oferecem opções.
Após a vitória sobre a França, o próprio De la Fuente atribuiu a classificação à união, à humildade e à ausência de vaidades. O treinador também destacou o comprometimento dos jogadores que não foram utilizados, mas continuaram treinando normalmente depois da partida. Segundo a Reuters, o comandante vê a força coletiva como a base da campanha.
É uma seleção com craques, mas sem a obrigação de transformar cada jogo em uma sessão individual de heroísmo.
A bola é parte da formação
Outro pilar do projeto espanhol começa muito antes de os jogadores chegarem à equipe principal.
Nas categorias de base, o desenvolvimento técnico e a compreensão do jogo recebem prioridade. Os jovens aprendem a oferecer linhas de passe, ocupar espaços, controlar a bola sob pressão e reconhecer o momento de acelerar ou diminuir o ritmo.
Os títulos nas divisões inferiores são importantes, mas não constituem o único objetivo. Formar jogadores capazes de reproduzir a identidade do futebol espanhol no nível profissional tem um peso semelhante — ou até maior.
Vários atletas que passaram por esse processo hoje defendem a seleção principal. Alguns fizeram parte da equipe derrotada pelo Brasil na final olímpica de 2021, resultado que não provocou o abandono da metodologia.
A Espanha perdeu aquela decisão, mas continuou formando jogadores dentro da mesma ideia. Cinco anos depois, muitos deles disputam uma final de Copa do Mundo.
No futebol brasileiro, uma derrota em torneio de base frequentemente inicia uma caça aos culpados. Na Espanha, ela pode ser apenas mais uma etapa da formação.
Posse de bola também é defesa
A Espanha não mantém a bola apenas para produzir um número bonito nas estatísticas.
A posse serve para controlar o território, movimentar o adversário e diminuir o tempo durante o qual a própria defesa fica exposta. Quando perde a bola, a equipe pressiona imediatamente para recuperá-la antes que o rival consiga organizar o contra-ataque.
O resultado aparece nos números: apenas um gol sofrido em sete jogos nesta Copa. Na semifinal, a badalada França de Mbappé, Dembélé e Olise encontrou enorme dificuldade para criar oportunidades durante a vitória espanhola por 2 a 0. A Espanha chegou à final com a melhor defesa do torneio e 37 partidas consecutivas sem perder no tempo regulamentar ou na prorrogação.
A comparação com o Brasil é inevitável. Na eliminação por 2 a 1 diante da Noruega, a Seleção teve apenas 33% de posse, segundo os dados da partida, e passou longos períodos reagindo às iniciativas do adversário. O índice foi o menor registrado pelo Brasil em um jogo de Copa do Mundo.
Ter mais a bola não garante vitória. Se garantisse, o futebol poderia ser resolvido com uma planilha e todo goleiro seria dispensado. A diferença está em saber por que se deseja a posse e o que fazer com ela.
A Espanha conhece essas respostas. O Brasil ainda parece procurá-las.
Esta não é uma cópia do time de 2010
As referências a Xavi, Iniesta, Busquets e ao famoso tiki-taka surgem sempre que a Espanha começa a trocar passes e controlar uma partida.
Existem semelhanças, mas a equipe atual não é uma reprodução daquela geração.
A seleção campeã em 2010 concentrava vários jogadores considerados entre os melhores do planeta em suas posições. O Barcelona de Pep Guardiola também dominava o futebol europeu e fornecia a espinha dorsal do time.
A versão comandada por De la Fuente é mais direta. Continua valorizando a posse, mas utiliza melhor a velocidade pelos lados, acelera as jogadas com maior frequência e apresenta uma pressão agressiva sem a bola.
Yamal oferece desequilíbrio individual. Oyarzabal ataca espaços. Merino acrescenta força física e presença na área. Rodri controla o centro do campo, enquanto Pedri e Olmo fazem a equipe circular entre as linhas adversárias.
A filosofia permanece, mas os movimentos foram atualizados.
Esse é outro ponto importante: ter identidade não significa repetir eternamente a mesma jogada. Um projeto precisa evoluir sem esquecer o que pretende representar.
O Brasil deve copiar a Espanha?
Não. E justamente aí está a maior lição.
O Brasil não precisa transformar todos os seus jogadores em versões tropicais de Xavi e Iniesta. Tampouco deve abandonar suas próprias características para perseguir uma imitação do futebol europeu.
O que pode ser aproveitado é o processo:
estabelecer uma identidade para todas as categorias;
investir na formação de treinadores;
aproximar as seleções de base da equipe principal;
avaliar o desenvolvimento além dos resultados imediatos;
manter uma metodologia mesmo depois de derrotas;
escolher jogadores compatíveis com a proposta;
evitar que cada novo treinador reinicie o trabalho do zero.
A Espanha definiu sua maneira de jogar e passou anos aperfeiçoando-a. O Brasil, por outro lado, atravessou diferentes comandos, ideias e crises administrativas sem consolidar uma direção técnica duradoura.
A lição espanhola não é “tenha mais posse”. É saber quem você é antes de entrar em campo.
Uma ideia colocada à prova contra Messi
No domingo, a filosofia espanhola enfrentará seu maior desafio.
Do outro lado estará uma Argentina emocionalmente forte, acostumada a sobreviver a partidas difíceis e liderada pelo maior artilheiro da história das Copas. Messi e seus companheiros tentarão conquistar o tetracampeonato, enquanto a Espanha buscará sua segunda estrela.
Uma derrota na final não apagará o trabalho espanhol. Assim como uma vitória não significará que o país encontrou uma fórmula infalível.
O que já está comprovado é a existência de um caminho. A Espanha sabe como deseja formar seus jogadores, como pretende controlar as partidas e quais características procura em seus treinadores.
O Brasil continua tendo talento suficiente para disputar qualquer competição. O que falta não parece estar nos pés.
Está na construção de um plano que sobreviva ao próximo treinador, à próxima eliminação e ao próximo pedido desesperado por uma revolução.
A Espanha chegou à final porque aprendeu a jogar coletivamente. Para o Brasil, talvez o primeiro passo seja aprender a planejar da mesma maneira.
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