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Não foi sorte: cinco razões que levaram a Argentina a outra final de Copa do Mundo

Não adiantou secar, fazer promessa ou torcer pelo relógio: a Argentina está novamente na final da Copa do Mundo. A vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra, com dois gols nos minutos finais, mostrou uma seleção experiente, mentalmente forte, abraçada pela torcida e ainda comandada por um Lionel Messi que se recusa a envelhecer. Separamos cinco fatores que explicam por que a Scaloneta continua viva na busca pelo tetracampeonato.

POR O CARA DO ESPORTE • 16/07/2026
Não foi sorte: cinco razões que levaram a Argentina a outra final de Copa do Mundo

A Inglaterra abriu o placar, fechou a defesa e começou a sonhar com sua primeira final de Copa do Mundo desde 1966. O problema foi esquecer de combinar o roteiro com Lionel Messi e uma Argentina que parece se divertir justamente quando está encurralada.

Com gols de Enzo Fernández, aos 85 minutos, e Lautaro Martínez, já nos acréscimos, a Albiceleste venceu os ingleses por 2 a 1, de virada, nesta quarta-feira, 15 de julho, em Atlanta. Anthony Gordon havia colocado o English Team em vantagem no começo do segundo tempo.

Messi participou diretamente dos dois gols argentinos, oferecendo as assistências que desmontaram a retranca britânica e classificaram a atual campeã para sua segunda decisão consecutiva. Reuters

Agora, a Argentina enfrentará a Espanha no domingo, dia 19, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Uma vitória dará ao país seu quarto título mundial, igualando Itália e Alemanha e deixando os argentinos a apenas uma taça do pentacampeonato brasileiro. MLS

Mas a classificação não caiu do céu — embora os argentinos provavelmente digam que Maradona deu aquela ajudinha lá de cima. Cinco fatores ajudam a explicar por que a Scaloneta chegou à sétima final de sua história.

1. Uma fortaleza mental vestida de azul e branco

A Argentina transformou o sofrimento em parte oficial de sua estratégia. Não importa se está atrás no placar, perto de ser eliminada ou jogando uma prorrogação: a equipe de Lionel Scaloni dificilmente entra em desespero.

Nas oitavas de final, Cabo Verde empatou duas vezes, mas os argentinos encontraram o gol da vitória por 3 a 2 na prorrogação. Contra o Egito, a situação foi ainda mais dramática. A Albiceleste perdia por 2 a 0 até os minutos finais e conseguiu uma virada por 3 a 2.

Nas quartas, a Suíça segurou o empate durante os 90 minutos, mesmo atuando com um jogador a menos, mas caiu na prorrogação por 3 a 1. Já na semifinal, a Inglaterra liderava até os 85 minutos e terminou eliminada antes mesmo que uma disputa por pênaltis pudesse entrar no horizonte.

Scaloni reconheceu depois da classificação que sua equipe cresce justamente quando está pressionada. O treinador citou as reações contra Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra como exemplos da força mental do grupo. Reuters

Não se trata apenas de “garra”, “alma” ou qualquer outra palavra que o futebol costuma usar quando faltam explicações. A Argentina administra melhor os momentos de tensão porque reúne jogadores acostumados a decisões e que já sobreviveram a situações semelhantes.

A taça de 2022 também retirou um peso enorme das costas desta geração. Antes, cada dificuldade parecia carregar os longos anos de frustrações da seleção. Agora, o grupo joga com a confiança de quem sabe que pode cair, levantar e continuar brigando.

2. Entrosamento de quem se conhece de olhos fechados

Enquanto outras seleções chegaram ao Mundial tentando encaixar peças novas, a Argentina decidiu manter boa parte da estrutura campeã no Catar.

A delegação de 2026 conta com 17 jogadores que também participaram da conquista de quatro anos atrás. Entre eles estão Emiliano Martínez, Cristian Romero, Nicolás Otamendi, Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister, Enzo Fernández, Lautaro Martínez, Julián Álvarez e, naturalmente, Lionel Messi.

É um elenco mais velho, mas também muito mais experiente. Os jogadores conhecem os movimentos uns dos outros, entendem as decisões de Scaloni e não precisam começar uma discussão tática do zero quando o plano inicial deixa de funcionar.

Essa continuidade aparece principalmente nos momentos mais caóticos. Quando a Argentina sofre um gol ou precisa alterar sua formação, o time não perde completamente a identidade.

Contra a Inglaterra, por exemplo, Scaloni utilizou Lautaro Martínez saindo do banco. O atacante entrou sabendo exatamente onde Messi procuraria espaço e apareceu na área para marcar o gol da classificação.

A Scaloneta não precisou realizar uma reconstrução porque seu ciclo anterior nunca deixou de funcionar. O resultado é uma equipe que chegou à decisão vencendo todas as suas partidas, ainda que algumas tenham exigido doses pouco recomendáveis de emoção.

3. Messi continua jogando como se o tempo fosse negociável

Lionel Messi tem 39 anos, está há três temporadas distante do futebol europeu e deveria apresentar sinais mais claros de desaceleração.

Aparentemente, ninguém teve coragem de avisá-lo.

O camisa 10 lidera a corrida pela Chuteira de Ouro da Copa de 2026, com oito gols e quatro assistências. Na semifinal, mesmo sem balançar a rede, participou dos dois gols da virada e assumiu novamente o controle da seleção no momento mais importante. Associated Press

Messi também chegou a 21 gols em Copas e se isolou como o maior artilheiro da história do torneio masculino, superando os 16 de Miroslav Klose. Além disso, tornou-se o primeiro jogador a participar de seis edições do Mundial.

Sua transferência para o Inter Miami, em 2023, acabou funcionando como uma decisão estratégica para prolongar a carreira. Em uma liga com ritmo menos intenso que o dos principais campeonatos europeus, o argentino conseguiu controlar melhor o desgaste físico sem abandonar a competitividade.

Isso não significa que Messi passe os jogos inteiros correndo como fazia aos 23 anos. Atualmente, ele escolhe quando acelerar, observa a movimentação dos adversários e economiza energia para os lances decisivos.

E, quando o momento chega, a bola ainda obedece.

A final contra a Espanha poderá ser sua última partida em Copas. Porém, depois de tudo o que ele vem fazendo aos 39 anos, talvez seja prudente não descartar completamente uma aparição em 2030. Com Messi, até a aposentadoria precisa aguardar a confirmação do VAR.

4. A torcida transformou os Estados Unidos em território argentino

A Copa é disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, mas a Argentina frequentemente entra em campo com a sensação de estar jogando em Buenos Aires.

Milhares de torcedores acompanharam a seleção em Atlanta e organizaram um enorme “banderazo” antes da semifinal. Ruas próximas ao estádio foram tomadas por camisas, bandeiras e músicas argentinas. Al Jazeera

A mobilização não nasceu nesta edição. Desde a Copa de 2022, a conexão entre jogadores e arquibancada tornou-se uma das marcas da seleção.

Não importa se o torcedor apoia Boca Juniors, River Plate, Racing, Independiente ou qualquer outro clube. Quando a Albiceleste entra em campo, o clubismo é colocado no bolso — algo que, convenhamos, poderia ser estudado por alguns vizinhos sul-americanos.

Os jogadores também alimentam essa relação. Cantam as mesmas músicas, comemoram diante das arquibancadas e tratam cada partida como um compromisso coletivo entre equipe e torcida.

Essa atmosfera não marca gols sozinha, mas influencia partidas apertadas. Quando o time está cansado ou precisa buscar uma reação, o barulho argentino ajuda a criar uma sensação permanente de urgência para o adversário.

Na semifinal, a Inglaterra não enfrentou apenas os 11 jogadores em campo. Teve que administrar também uma arquibancada que acreditou na virada até o último minuto.

5. Um ciclo vencedor que nunca saiu dos trilhos

A campanha de 2026 não é um acontecimento isolado. Ela representa a continuidade de um dos períodos mais vitoriosos da história da seleção argentina.

O ciclo começou com o título da Copa América de 2021, que encerrou um jejum de 28 anos. Depois vieram a Finalíssima e a Copa do Mundo em 2022. Em 2024, a equipe voltou a conquistar a Copa América, derrotando a Colômbia na decisão.

Nas Eliminatórias para 2026, a Argentina terminou na liderança sul-americana com 38 pontos, nove à frente do Equador. A campanha também contou com uma goleada por 4 a 1 sobre o Brasil no Monumental de Núñez e uma vitória por 1 a 0 no Maracanã.

A preparação para o Mundial recebeu críticas pela ausência de amistosos contra grandes seleções europeias. Os argentinos enfrentaram adversários como Angola, Honduras, Islândia e Porto Rico durante o ciclo.

Mesmo assim, o trabalho possuía algo que muitas seleções passam anos procurando: estabilidade.

Scaloni manteve seu núcleo, preservou a identidade competitiva e não transformou cada desempenho ruim em uma crise nacional. A Argentina chegou ao Mundial sabendo exatamente como queria jogar — e, principalmente, como reagir quando esse jogo não funcionasse.

Agora falta a Espanha

A Argentina disputará sua sétima final de Copa depois de chegar às decisões de 1930, 1978, 1986, 1990, 2014 e 2022. As três estrelas vieram em 1978, 1986 e 2022.

Se vencer a Espanha, será a primeira seleção desde o Brasil de 1958 e 1962 a conquistar dois Mundiais consecutivos. Também confirmará uma sequência impressionante de quatro grandes títulos em um intervalo de apenas seis anos. Reuters

A Espanha chega à decisão com uma equipe mais jovem, intensa e tecnicamente qualificada. A Argentina responde com experiência, confiança, torcida e um camisa 10 que parece ter feito um acordo particular com o calendário.

Não foi sorte que colocou a Scaloneta em outra final. Foram continuidade, resistência, apoio popular, trabalho bem conduzido e uma quantidade nada razoável de Lionel Messi.

Agora resta saber se isso será suficiente para o tetracampeonato — e para deixar o Brasil começando a olhar pelo retrovisor.

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