Do barulho do Maracanãzinho ao US Open: João Fonseca define rota e prega paciência
João Fonseca trocará o silêncio tradicional do tênis pelo barulho liberado do UTS Rio antes de embarcar para a temporada norte-americana de quadra rápida. Depois da exibição no Maracanãzinho, o brasileiro disputará os Masters de Montreal e Cincinnati, descansará uma semana em Nova York e partirá para o US Open. Sem obsessão pelo ranking, o jovem mantém a confiança: trabalho primeiro, resultado depois.
João Fonseca já sabe qual caminho percorrerá até o US Open, último Grand Slam da temporada.
A preparação começa em casa, diante da torcida brasileira e dentro de um Maracanãzinho que promete se comportar muito mais como estádio de futebol do que como uma tradicional arena de tênis.
Depois do UTS Rio, o brasileiro seguirá para os Masters 1000 de Montreal e Cincinnati. Washington ficou fora do planejamento. Na sequência, viajará para Nova York, onde pretende descansar e treinar durante uma semana antes do início do US Open.
Será uma transição completa: do barulho carioca às quadras rápidas da América do Norte, passando por uma sequência de adversários de alto nível.
Aos 19 anos, João chega a essa etapa depois de alcançar as quartas de final de Roland Garros e a terceira rodada de Wimbledon. Os resultados aumentaram a expectativa ao seu redor, mas o tenista garante que sua prioridade continua sendo o desenvolvimento.
A mensagem é direta: “Os resultados vão vir.”
Só não precisam chegar correndo mais rápido do que um saque.
Primeiro compromisso será no Maracanãzinho
O Ultimate Tennis Showdown desembarcou pela primeira vez na América do Sul e será disputado entre os dias 16 e 18 de julho, no Maracanãzinho.
O evento começa nesta quinta-feira, mas João Fonseca entrará em quadra apenas na sexta. O brasileiro fará dois jogos: enfrentará Tallon Griekspoor por volta das 19h e Nick Kyrgios às 21h.
O torneio também contará com Francisco Cerúndolo, Cameron Norrie, Brandon Nakashima, Corentin Moutet e Guto Miguel, atual número 1 do ranking juvenil.
Programação de João Fonseca:
Sexta-feira, às 19h: João Fonseca x Tallon Griekspoor;
Sexta-feira, às 21h: João Fonseca x Nick Kyrgios;
Sábado: semifinais, partidas classificatórias e final.
O Sportv 3 e a Ge TV transmitirão os jogos. A competição distribuirá aproximadamente R$ 6,8 milhões em premiação, embora não conceda pontos para o ranking da ATP. Ge
Tênis com torcida liberada para fazer barulho
O UTS foi criado pelo treinador francês Patrick Mouratoglou com a proposta de apresentar partidas mais rápidas, dinâmicas e próximas do público.
Em vez dos tradicionais sets, os confrontos são divididos em quatro quartos de oito minutos. Os jogadores precisam somar mais pontos que o adversário dentro do período, e regras especiais podem alterar o andamento da partida.
Outra diferença estará nas arquibancadas. O silêncio não será obrigatório durante os pontos, permitindo que os torcedores cantem, gritem e interajam com os jogadores.
Para João, a atmosfera poderá transformar o Maracanãzinho em uma extensão do estádio localizado ao lado.
O brasileiro cresceu frequentando o ginásio com sua família e acompanhou competições importantes no local, incluindo partidas de vôlei. Agora, voltará como uma das principais atrações de um evento internacional.
A oportunidade possui um significado especial porque grandes partidas de tênis não eram realizadas no Maracanãzinho havia aproximadamente 14 anos.
No UTS, João utilizará o apelido de “The Rocket”, ou “O Foguete”, escolhido por seu estilo agressivo e pela potência de seus golpes. O evento será disputado diante de até 11 mil torcedores. UTS
A combinação parece apropriada: um Foguete, um ginásio barulhento e uma torcida brasileira que nunca precisou de autorização formal para fazer festa.
Wimbledon continua sendo o torneio favorito
João chega ao Rio depois de alcançar novamente a terceira rodada de Wimbledon.
O brasileiro venceu Roberto Bautista Agut e Jesper de Jong sem perder sets, mas acabou dominado pelo russo Roman Safiullin, que avançou com parciais de 6/3, 6/3 e 6/3.
Apesar da eliminação, João repetiu sua melhor campanha na grama inglesa e afirmou ter percebido evolução em uma superfície que ainda considera a mais complicada para seu estilo.
O resultado também veio depois de uma preparação limitada. Ele perdeu na estreia do ATP de Halle e desistiu de Eastbourne por causa de um desconforto no ombro direito.
Mesmo assim, Wimbledon permanece como seu torneio preferido.
O brasileiro destaca a tradição, o ambiente e a beleza do All England Club. Seu objetivo é transformar a admiração pelo evento em uma campanha ainda mais longa no futuro — e, se possível, terminar um domingo levantando o troféu.
Por enquanto, a terceira rodada faz parte do processo. Safiullin venceu em pouco mais de duas horas e não sofreu nenhuma quebra de saque. ATP
A vitória sobre Djokovic mudou o tamanho das expectativas
Se Wimbledon terminou antes do desejado, Roland Garros entregou a maior campanha da carreira de João Fonseca em um Grand Slam.
O brasileiro chegou às quartas de final e se tornou o primeiro tenista do país desde Gustavo Kuerten a alcançar essa fase no saibro parisiense.
O momento mais marcante aconteceu na terceira rodada, diante de Novak Djokovic.
João perdeu os dois primeiros sets e ficou muito perto da eliminação, mas reagiu para vencer uma batalha de 4h53. As parciais foram de 4/6, 4/6, 6/3, 7/5 e 7/5.
Com o resultado, tornou-se o primeiro adolescente a derrotar Djokovic em um Grand Slam. Também foi o primeiro jovem em 30 anos a conseguir duas viradas consecutivas após perder os dois primeiros sets em partidas de um torneio desse nível.
Na rodada seguinte, eliminou Casper Ruud, duas vezes finalista em Paris, antes de cair diante do tcheco Jakub Mensik nas quartas.
A vitória sobre Djokovic colocou João definitivamente entre os jogadores mais observados da nova geração. Para ele, porém, o valor daquele confronto não está apenas no resultado.
Dividir a quadra com um dos maiores tenistas da história permitiu entender melhor as exigências físicas, técnicas e mentais necessárias para enfrentar a elite. E vencê-lo mostrou que o topo talvez esteja distante, mas já não parece inalcançável. Roland-Garros
Enfrentar os melhores virou parte do aprendizado
Ao longo da temporada, Fonseca mediu forças com nomes como Jannik Sinner, Carlos Alcaraz, Alexander Zverev e Djokovic.
Embora tenha sido derrotado nos confrontos contra Sinner, Alcaraz e Zverev, o brasileiro considera que a sequência trouxe informações valiosas.
Essas partidas permitiram comparar seu nível com o dos principais jogadores do circuito: identificar fundamentos em que os rivais ainda são superiores, perceber pontos nos quais já consegue competir e descobrir quais armas poderão ser desenvolvidas.
João vive apenas sua segunda temporada completa como profissional. Diferentemente de 2025, agora também precisa defender pontos conquistados anteriormente, uma novidade que acrescenta pressão ao calendário.
O amadurecimento não acontece apenas aprendendo a vencer. Ele também passa por lidar com derrotas, viagens extensas, mudanças de superfície e semanas nas quais o corpo não responde como o jogador gostaria.
É uma escola bastante exigente. A mensalidade costuma ser paga em sets perdidos.
Montreal e Cincinnati antes do US Open
Depois do UTS Rio, João permanecerá por mais alguns dias no Brasil para descansar, treinar e trabalhar nos pontos que deseja melhorar.
O brasileiro decidiu não disputar o ATP de Washington. Sua temporada oficial nas quadras rápidas da América do Norte começará no Masters 1000 de Montreal e continuará em Cincinnati.
Em seguida, ele seguirá para Nova York e terá uma semana dedicada à adaptação antes do US Open, marcado para o fim de agosto.
O planejamento completo será:
UTS Rio, no Maracanãzinho;
Período de descanso e treinamento no Brasil;
Masters 1000 de Montreal;
Masters 1000 de Cincinnati;
Semana de preparação em Nova York;
US Open.
A decisão de reduzir o número de torneios antes do Grand Slam ajuda a controlar o desgaste. Montreal e Cincinnati já formarão uma sequência exigente contra os principais jogadores do circuito.
Depois do US Open, João voltará suas atenções para a Copa Davis, que terá confronto no Rio de Janeiro. Na sequência, seguirá diretamente para a gira asiática, apontada por ele como possivelmente a mais longa do ano.
Evolução acima da matemática do ranking
João reconhece que possui metas para a temporada, mas prefere mantê-las restritas à equipe.
Em vez de estabelecer publicamente uma posição específica no ranking ou determinado número de títulos, o brasileiro concentra sua avaliação em aspectos como maturidade, experiência, rotina e evolução técnica.
Isso não significa ausência de ambição. O objetivo de competir regularmente com Sinner, Alcaraz, Zverev e outros integrantes da elite está claro.
A diferença está na maneira de chegar até lá.
Aos 19 anos, João entende que transformar cada torneio em uma obrigação de vencer poderá atrapalhar o desenvolvimento. Seu foco está em treinar corretamente, absorver as experiências e construir um jogo capaz de se sustentar durante uma temporada inteira.
Do Maracanãzinho a Flushing Meadows, a rota está definida. Agora, cada partida acrescentará alguma coisa à bagagem do brasileiro.
Os resultados, como ele mesmo acredita, virão. A torcida só precisa aceitar que uma carreira de tênis não funciona no mesmo ritmo de um tie-break: às vezes, construir o ponto certo leva um pouco mais de tempo.
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